Cripface: entenda o movimento que o cinema (às vezes) ignora

O cinema tem grande poder de encantamento e engajamento e sempre foi um importante canal para contar histórias ficcionais e reais. Só que mesmo com os movimentos por maior diversidade nas produções cinematográficas, tanto por quem as produz quanto por quem dá rosto e voz a essas narrativas, o cinema parece ainda ignorar as pessoas com deficiência. E mais do que isso: quando elas são parte importante da história, atores sem deficiência são escalados para as representarem. 

Esse movimento não é novidade e tem nome ainda pouco conhecido: cripface. O termo cripface é utilizado para a escolha de atores sem deficiência para viver papéis em que o personagem possui alguma deficiência. Ou seja, é a interpretação de um personagem com deficiência por atores que não a possuem. O fenômeno cripface não se restringe apenas ao cinema e pode ser encontrado na televisão, teatro e tantas outras produções que tocam na temática PcD. 

O capacitismo no mercado audiovisual

Para se ter uma ideia de como a inclusão social de pessoas com deficiência no mercado audiovisual acontece a passos largos, o relatório “Where We Are on TV” 2020-2021 do GLAAD investigou a presença de pessoas com deficiência em todas as séries regulares do horário nobre da televisão norte-americana. 

Das produções transmitidas, apenas 3,5% possuíam personagens com algum tipo de deficiência – e com um número tão baixo, é ainda mais impactante pensar que os estúdios raramente contratam atores com deficiência para interpretar esses poucos papéis.

E não é preciso ir tão longe para ver os reflexos do cripface e o quanto ele impacta a vida de atores e atrizes com deficiência. Maria Paula Vieira, atriz e modelo, conta quando se deu conta da presença do cripface nessa área:

“Sempre me gerou um incômodo não ver atrizes ou atores com deficiência no mercado audiovisual, principalmente quando eram papéis que nos interpretavam, falavam sobre as nossas vivências. Mas eu tomei maior consciência disso quando começamos, aqui no Brasil, a debater mais fortemente sobre o capacitismo, ao mesmo tempo em que o movimento artístico fora do país começou a falar sobre o cripface no filme ‘Como Eu Era Antes de Você’. A partir desse ponto eu comecei a entender esse incômodo que me gerava. Assim como o blackface para as pessoas pretas, o cripface também veio a me atingir como pessoa com deficiência e artista no mercado de trabalho.”

Maria Paula Vieira atuando
Maria Paula Vieira em trabalho para Unesco

Muitas vezes, o mercado audiovisual tenta justificar o capacitismo e cripface com a falta de preparo dos profissionais PcD, mas Maria Paula vê essa fala como contraditória:

“Sempre ouço desculpas para justificar o cripface, como falta de verba, falta de espaço acessível, falta de atores capacitados. Mas o que mais usam como desculpa é sobre roteiros em que durante o enredo a pessoa com deficiência sofre um acidente ou volta a andar no final e eu sempre brinco que ‘obviamente Harry Potter não voava em uma vassoura de verdade’. Na tela há diversas formas e tecnologias de construir o imaginário, temos diversas produções para comprovar isso. Recentemente no filme ‘Fuja’, a atriz Kiera Allen é cadeirante de verdade e no final do filme ela volta a recuperar alguns movimentos, que foram construídos através de CGI e dublê… não tem desculpa, é possível quando a produção se prepara e está aberta de verdade para construir espaços de trabalho para nós.” 

Cripface exclui e reforça estereótipos

A prática de usar atores e atrizes sem deficiência para interpretar papéis PcD vai além das produções audiovisuais em si: o cripface impede a inclusão social de deficientes neste mercado e contribui para reforçar alguns estereótipos ligados às pessoas com deficiência.

Maria conta que “como pessoa com deficiência sempre somos descartados do mercado de trabalho, quando se fala de arte, de expressão do próprio corpo, isso é ainda mais avassalador. O cripface me tira oportunidades, impacta diariamente na minha carreira, muitas vezes me encaixo em diversos perfis e papéis, mas eles não me chamam por ‘não ter acessibilidade’ ou não ser ‘específico para diversidade’ e ser descartada por uma característica física é sempre uma violência. E isso acontece ainda em todo o mundo, fora do país mais de 8 personagens com deficiência ganharam o Oscar e nenhum deles foi interpretado por um ator com deficiência.”

E ainda complementa que “quando se fazem roteiros sem a consultoria da nossa vivência o capacitismo aparece de forma ainda mais clara, com todo o estereótipo que a sociedade carrega sobre nós, os estereótipos do coitado, infeliz, exemplo de superação, sempre em busca de um herói ou uma cura, nunca mostram nossa realidade de fato ou criam histórias para além da nossa deficiência. O cripface reforça tudo isso, é triste ver a nossa realidade sempre ser apagada.”

Maria Paula Vieira gravando o clipe musical "o bebê"
Maria no clipe musical “O Bebê”

Se de um lado há um mercado que ainda privilegia nomes conhecidos para as suas produções que incluem narrativas de pessoas com deficiência, de outro há uma parcela expressiva da população mundial que não se vê representada no cinema e na TV e tampouco vê seus iguais ocupando esses espaços. 

“Quero lembrar também que quando falam que não há atores com deficiência capacitados, não pensam que não nos oferecem oportunidades de carreira ou crescimento, não pensam em nos oferecer capacitações em uma sociedade que não nos oferece isso, preferem ver o problema e ignorar, não ir atrás. Mas muitas vezes para pessoas que estão dentro do suposto padrão da sociedade a mídia oferece o espaço mesmo sem preparo. Isso deixa claro que ainda há, na verdade, um grande preconceito”, complementa Maria Paula Vieira.

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