Conheça histórias de mulheres que interromperam a gravidez não planejada e outras que optaram por seguir em frente

Na sociedade em que vivemos, ser mãe é considerada como a maior conquista que uma mulher pode atingir. Toda a identidade feminina, seu papel na sociedade, seus direitos políticos e sua participação econômica giram em torno da maternidade. No entanto, como se sentem as mulheres que se deparam com uma gravidez não planejada?
Apesar de todo o progresso conquistado graças às revoltas e protestos e dos direitos conquistados pelo sexo feminino – como poder participar das eleições, ter acesso a métodos contraceptivos e poder trabalhar – ter filhos ainda é a principal obrigação social de todas as mulheres.
Por essa razão, a maternidade é vendida de forma extremamente romantizada para que todas acreditem que ser mãe é mágico, especial e lindo, e de que o nascimento da cria significa atingir um automático amadurecimento, uma sabedoria adquirida somente através da maternidade. Para as mulheres que escolhem não ter filhos, ou até para as que não podem tê-los, independentemente da razão, restam o julgamento e o preconceito social.
Justamente por isso, a romantização dessa condição, juntamente com o machismo que reduz as mulheres ao seu papel de mãe, acabam por tornar a maternidade em uma experiência muito mais opressora do que libertadora, principalmente nos casos de uma gravidez indesejada, que acontece sem o planejamento e desejo concreto da mulher, transformando a descoberta da gestação em um momento de desespero, solidão e culpa.

Quando descobriu a gestação, Joyce, na época com 26 anos, sentiu um misto de desespero e medo: “Eu me via como uma mulher muito irresponsável, inconsequente e tinha muita vergonha do julgamento da minha família, das pessoas que eu conhecia” lembra.
O medo do julgamento de familiares e amigos é muito comum em mulheres que passam por uma gravidez não desejada. Débora, que já era mãe aos 20 anos quando descobriu a segunda gestação, teve muito medo da reação dos pais: “eu ainda morava com eles e tinha uma filha de 4 anos para cuidar, por isso pensei em interromper a gravidez”.
Marina, quando descobriu a gravidez aos 17 anos, foi expulsa de casa pela mãe, e passou a depender do pai do filho, Miguel, para ter um teto, e acabou refém de uma relação tóxica e abusiva.
A decisão de interromper a gravidez não é fácil, ao contrário do que se pensa. No Brasil, o aborto é considerado um crime, com penas previstas de 1 a 3 anos de detenção para a gestante, e de 1 a 4 anos de reclusão para o médico (ou qualquer outra pessoa) que realiza o procedimento.
Além do risco do encarceramento, a mulher que escolhe interromper a gravidez ainda corre risco de vida, que se agrava para pessoas em vulnerabilidade social e econômica. O Ministério da Saúde estima que cerca de 1 milhão de abortos induzidos sejam praticados todos os anos e em mulheres de todas as classes sociais. No entanto, entre as milhares que são hospitalizadas por complicações ou se tornam vítimas fatais de procedimentos abortivos, são mulheres negras, pobres e de baixa escolaridade.

Laura, que engravidou aos 17 anos, estava disposta a tudo para interromper a gestação. “Eu senti muito medo. Não queria ter filhos, tinha pouca idade, não tinha estrutura e maturidade nenhuma para criar um filho, e meu companheiro menos ainda.” Por isso, Laura estava disposta a fazer qualquer coisa para realizar o procedimento abortivo, mas, por sorte, acabou descobrindo uma clínica segura (e cara) por uma conhecida.
Joyce, que também escolheu interromper a gravidez, tomou a decisão após pensar muito: “sentia que não estava preparada, que não queria interromper meus estudos, uma carreira que nem havia começado. Apesar de namorar sério há um bom tempo, eu sabia do peso de uma gravidez para a mulher”comenta,
Ela ainda compartilha que, na busca por métodos abortivos na internet, descobriu um grande mercado ilegal que se aproveita do desespero de mulheres para vender remédios de procedência duvidosa que não garantem a interrupção da gravidez: “há muitos grupos onde elas compartilham de tudo, desde procedimentos caseiros até contatos de traficantes.”
O alívio veio somente quando Joyce pediu ajuda dos amigos e conseguiu entrar em contato com outra moça que também havia passado pela mesma situação.
“Conversar com uma menina que já tinha feito o procedimento e estava viva, estava bem, me deu muita coragem. Apesar do medo de encontrar um médico qualquer que colocaria minha vida em risco, a vontade de não colocar uma criança no mundo sem a menor condição de criar me motivou a ir numa consulta.”
Para Marina, que apesar de ter sentido vontade de interromper a gravidez desde o início, decidiu continuar com a gestação, a maior dificuldade foi não contar com nenhum tipo de base familiar para apoiá-la, o que acabou causando a perda da guarda do filho para o ex-marido: “Eu tenho ansiedade e depressão, e estou vencendo a cada dia que passa. Hoje em dia o pai do Miguel, que cuida dele, mas continuo na justiça há 2 anos esperando a guarda compartilhada, pois na época eu não tinha condições alguma de cuidar dele, não tinha onde morar e nem ninguém para me ajudar.”
Débora teve mais sorte, pois, ao contrário do que imaginava, os pais não tiveram uma reação tão negativa e o apoio que teve do seu companheiro na época também foi essencial: “ele deixou bem claro que sempre estaria do meu lado e me apoiaria, e isso foi muito importante”.
Para todas as mulheres, tanto para as que se tornaram mães quanto para as que escolheram não ser, as dificuldades encontradas traduzem em uma experiência com a maternidade muito mais complexa do que a versão romantizada que lhes é apresentada. Assim como a decisão de não dar à luz é de uma complexidade muito maior do que se imagina.
Joyce ainda lida com as consequências de sua escolha: “tive vergonha, chorei muito, tive medo de algum tipo de castigo divino. Hoje, eu sinto que optei pelo que era melhor pra mim naquele momento. Não me arrependo da minha decisão, mas também não me orgulho.” Já Laura, não sentiu culpa em nenhum momento: “minha decisão continuará a mesma, não me arrependo” afirma ela, convicta.
Para as mães que optaram pela maternidade, mesmo sentindo vontade de interromper a gravidez não planejada, fica apenas os conselhos que gostariam de ter recebido antes. Débora afirma que “ser mãe não é tão essencial na vida de uma mulher” e Marina acrescenta: “a verdade é que você vai fazer tudo sozinha, vai sobrar somente para você. E que ter filho não é fácil, não é algo pra se brincar de casinha, é uma responsabilidade sua para sempre” ressalta ela, que hoje tem um filho de 5 anos.

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