Maternidade e carreira: como equilibrar?

A luta feminina por equidade teve alguns resultados ao longo dos anos e já é possível ver as mulheres ocupando espaços, que até então eram impensáveis, e se desenvolvendo em diversas esferas da vida, como a carreira profissional.

Entretanto, há um grande aspecto que historicamente limita mulheres a caminharem e evoluírem com suas carreiras aos olhos do mercado: a maternidade. Para grande parte das mulheres, na balança, maternidade e carreira sempre têm pesos desiguais e, para muitas, existe apenas um caminho a ser escolhido.

As mães no mercado de trabalho enfrentam desafios para conciliar maternidade e carreira, diante do acúmulo de afazeres e responsabilidades que são atribuídas a essas mulheres que, diariamente, se questionam: “como conciliar carreira e maternidade?”

Mães no mercado de trabalho

Mesmo com os avanços, a discrepância entre homens e mulheres no mercado de trabalho ainda é gritante. De acordo com o relatório do Fórum Econômico Mundial, se a evolução dos direitos das mulheres continuar no ritmo atual, a igualdade de gênero só acontecerá em 2095.

Quando o assunto é remuneração, os números são ainda mais negativos: no ranking de igualdade salarial entre 142 países, o Brasil ocupa o 124º lugar, estando em penúltimo lugar entre os países das Américas, perdendo apenas para o Chile. Já segundo o IBGE, a remuneração da mulher corresponde a 80% do que o homem ganha para desempenhar as mesmas funções.

E o cenário de desigualdade de gênero, que já não era muito positivo, se agravou com a pandemia da Covid-19. Em 2020, houveram grandes impactos no mercado de trabalho brasileiro e as mulheres foram as que mais sentiram esse reflexo. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o percentual de mulheres que estavam trabalhando ficou em 45,8% no terceiro trimestre de 2020, o nível mais baixo desde 1990.

E um fator que teve grande efeito para as mães no mercado de trabalho: a suspensão das aulas escolares. Ainda de acordo com o Ipea, entre as mulheres com filhos de até dez anos, a parcela que estava trabalhando caiu 7,8 pontos percentuais, de 58,2% para 50,4%, do terceiro trimestre de 2019 para o terceiro trimestre de 2020.

Esses efeitos de um novo modelo de trabalho, adequado às pressas diante da pandemia que não leva tais variantes que as mães precisam enfrentar, que Thamires Nascimento, de 30 anos, sente na pele todos os dias, ao tentar equilibrar o trabalho com Telemarketing e o filho Zion, de 7 anos: 

Maternidade e vida profissional equilibradas é algo que tô tentando descobrir como fazer desde o início da pandemia. A demanda de atenção do Zion aumentou muito por eu estar trabalhando em casa. Antes, eu estava trabalhando em uma casa acima da minha que estava vazia. Então, ele não ia muito lá. Mas, agora, a casa foi alugada. E por mais que ele entenda que eu estou trabalhando, ele quer sempre falar algo, pede para eu brincar um pouco, pergunta se já estou no horário de almoço pra brincar com ele. E eu trabalho com telemarketing, então preciso de silêncio. Mas sempre depois do trabalho a gente brinca e, na hora do almoço, almoçamos juntos.  É difícil falar de equilíbrio, muito difícil, ainda mais quando se é mãe solo, porque tudo depende de você, sabe.”

Thamires nascimento
Com a pandemia, ficou mais difícil conciliar maternidade e carreira

E quando não há equilíbrio, ocorre o abandono à carreira. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo IBGE, mostrou que cerca de 7 milhões de mulheres deixaram seus postos de trabalho no início da pandemia, 2 milhões a mais do que o número de homens na mesma situação. 

Como conciliar carreira e maternidade

Um estudo da revista Crescer, feito com 2,887 mulheres, expôs o que muitas mães já sabiam: 94% das mulheres relatam ter dificuldade para conciliar maternidade e carreira. Preconceito com mães no mercado de trabalho e falta de políticas trabalhistas pensadas para esse público são um dos tópicos mais citados pelas entrevistadas.

Além disso, 64% disseram ter tido a carreira prejudicada pela maternidade, ora porque tiveram que recusar projetos e promoções para cuidar dos filhos, ora porque deixaram de ser promovidas justamente por serem mães.

Raissa Araujo, de 31 anos, é operadora de trem do Metrô e mãe da Patricia, de 6 anos, e do Benício, de apenas 1 mês. Atualmente em licença maternidade, ela teme por um retorno cheio de incertezas:

“Pra mim, sendo mãe pela segunda vez, o maior desafio para equilibrar a maternidade e a carreira profissional está sendo lidar com a ansiedade da volta ao trabalho. Ainda estou de licença maternidade, mas além de sentir falta de ser produtiva num ambiente externo à minha casa, tenho medo de não conseguir dar conta dos filhos e do trabalho. Sou mãe solo e a empresa onde trabalho não tem horários maleáveis, conciliar tudo isso é – com certeza – o meu maior desafio para que haja equilíbrio.”

Raissa Araújo
O medo de não dar é recorrente entre as mães no mercado de trabalho

Ainda é surpreendente como quando o assunto é maternidade e carreira profissional, é preciso fazer escolhas. Quando perguntada sobre como estabelecer um equilíbrio entre as aspirações profissionais e o dia a dia da maternidade, Joyce Salvador, de 27 anos, modelo fotográfica, criadora de conteúdo e mãe da Ágatha, de 8 anos, e do Akim, de 20 meses, relata:

“Essa é a pergunta que eu mais recebo e queria ter a resposta, mas a realidade é que não dá para equilibrar a maternidade com a carreira, pelo menos não da forma que a sociedade impõe, pois querem que a gente trabalhe como se não tivéssemos filhos e que sejamos mães como se a gente não trabalhasse fora.

Tem sempre um lado que pesa mais na balança e aqui é a maternidade. Eu vivo tendo que remanejar, encaixar, prolongar os prazos e até abdicar de algumas oportunidades porque sou mãe solo de duas crianças e não consigo dar conta de tudo. Então, constantemente, preciso escolher e priorizar o que julgo mais importante nesse momento, – eu, Joyce, por muitas vezes escolho a maternidade. Às vezes, é por entender que as crianças não vão ser pequenas para sempre (eles só vão ser crianças por mais uns anos e eu vou seguir sendo eu), outras vezes é por não ter outra alternativa, já que não tenho uma rede de apoio.” 

Joyce salvador
Nem sempre é possível conciliar maternidade e carreira

Mas, com tantos desafios, como as mães no mercado de trabalho conseguem persistir, mesmo cientes que, nem sempre, o equilíbrio será possível? 

“Muitas vezes, eu preciso lidar com a frustração de não conseguir ser a profissional que eu sei que sou por ter que fazer o possível enquanto tem um bebê mamando no peito e uma criança contando a mesma história pela milésima vez. Também me frustra muitas vezes não conseguir estabelecer uma rotina, não ter a casa sempre organizada… Por outro lado, eu sigo feliz com as minhas escolhas, pois nada se compara ao amor que sinto pelos meus filhos, pela felicidade que é vivenciar o desenvolvimento deles, pelo orgulho e satisfação que dá saber que você é a maior responsável por criar crianças felizes e revolucionárias”, encerra Joyce.

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